terça-feira, 24 de junho de 2014

RETRATO PARCIAL E FRAGMENTADO DAS NEGRAS E DOS NEGROS DO CEARÁ

Este capítulo é uma análise do evento promovido pelo Museu do Ceará: Seminário Negros no Ceará: História, Memória e Etnicidade. O evento foi realizado aqui em Fortaleza nos dias 18, 19 e 20 de Junho de 2008. Foi promovido pela Associação Amigos do Museu do Ceará e teve o apoio da Unegro - União de Negros pela Igualdade. A minha análise desse evento é fragmentada porque minha participação foi fragmentada. Não tive condições financeiras de participar de todas as atividades e horários oferecidos pelo seminário. Até porque coincidiu com a fase em que estava divulgando na cidade o Curso Panorama da Mitologia Afro-brasileira, sem patrocínio e com todas as dificuldades de quem divulga cursos dessa natureza numa cidade marcada pelo catolicismo branco de matriz ibérica, onde a população negra tem uma baixa auto-estima tão grande que adota a religião do branco e não se assume negra: - Não senhor, sou moreno escuro. O seminário partiu de uma premissa bem crítica enunciada em seu folder: A abolição do escravismo negro, coincide em 1884 no Ceará, foi um dos fatos mais elaborados na escrita de uma história oficial do estado. A expressão "Ceará - Terra da Luz", um dos principais epitetos construídos acerca de uma 'identidade' local, surge a partir daí, sendo apropriada na contemporaneidade com fins mercadológicos ligados ao turismo local E aí com este tipo de folder nós temos a resposta porque é que o Museu do Ceará anda sempre mal das pernas financeiramente, porque o Governo Cid Gomes prefere enviar gordas verbas para o Porto de Pecém e para os megaprojetos como a Siderúrgica e a Refinaria, do que pagar em dia o salário dos monitores do Museu do Ceará. Tudo por um motivo simples: o Museu do Ceará incomoda. A história local incomoda. A memória incomoda. Ficar escarafuçando os "feitos" dos poderosos do passado incomoda os poderosos do presente. E aí vemos os funcionários, bolsistas do Museu fazendo heroicamente esse seminário, contando com a cara e coragem e contando com um pouco de dinheiro que entra da venda dos livros editados pelo Museu do Ceará, ainda da gestão passada do Museu. Se não fosse a venda dos livros na portaria do Museu ficaria inviabilizado coisas simples como tirar um xerox, comprar uma mídia que vai ser utilizada pelo palestrante na mesa-redonda no Datashow, comprar uma água, entre outras coisas.Ou seja, eis a política cultural do Governo Cid Gomes:o Museu do Ceará de pires na mão. Enquanto o Porto do Pecém que lesou vilas de pescadores com todas as verbas. Participei como ouvinte da mesa-redonda: Herança cultural africana no Ceará. Nela o professor Lino de Ogum fez uma comunicação interessante sobre os falares afro, usando sua experiência como homem de letras e entrando em considerações lingüísticos-filológicas sobre a língua Bantu, a etnia negra que mais colonizou o Ceará, ainda que ele, por ser de um ilê keto tenha falado um pouco do tronco lingüístico yorubá. Foi muito interessante a comunicação dele, porque deu a oportunidade das pessoas presente perceberem que o povão fala muito banto e yorubá sem saber. Na comunicação de Cláudio Correia (presidente do Maracatu Vozes D'Africa) surgiu um mal-estar geral, pois ele enunciou explicitamente que o indígena é preguiçoso e o negro trabalhador. Eu como tento ser compreensivo sempre, acabei entendendo o porquê dessa representação tão negativa do indígena e tão utilitarista da figura do negro. O homem é folclorista e o que os folcloristas brasileiros mais lêem é uma farta bibliografia da década de 20 e 30 com franca orientação nazi-fascista. Ou seja, falo do cearense Gustavo Barroso e do potiguar Câmara Cascudo, que como relata a historiografia do anarquista Edgar Rodrigues, assinaram o manifesto fascista - integralista daqueles anos. Todos eles embevecidos pelas idéias autoritárias de Plínio Salgado e do chamado Verde-Amarelismo em torno da revista Anta e outros periódicos que se opunham ao modernismo de cunho nativista e anárquico de Mário de Andrade, Oswald de Andrade e Raul Bopp. O Brasil construído por esses homens integralistas aponta para a direção da fala do Cláudio Correia: um Brasil feito pelo índio, pelo negro e pelo colonizador português, mas em que o índio e o negro têm de saber o seu lugar: o lugar da submissão, o lugar da invisibilidade social, um lugar subalterno e desempoderado, portanto. O índio para ser aceito e o negro para ser aceito terá de renunciar as suas ancestralidades e assumir os valores do branco europeu. Até o cearense Gerardo de Mello Mourão caiu nessa esparrela integralista e quando vivo cantava loas ao integralismo, a Mussolini e a todos os ditadores da época. A comunicação do Prof. Dr. Gerardo Vasconcelos da Faculdade de Educação foi bem interessante e tentou revelar as relações entre a combatividade da população negra através da arte da capoeira. Inclusive toda a cooptação mercadológica da capoeira com a criação da luta regional. O interessante foi a recuperação de uma figura baiana, um capoeirista negro chamado Besouro, um verdadeiro "Robin-hood" da época: amado pelo povão, odiado pelos poderosos e pela polícia. E que acabou morrendo num leito da Santa casa de misericórdia da Bahia se esvaindo em sangue e sem atenção nenhum dos profissionais de saúde, por ordem dos poderosos locais. A comunicação de Armando Leão (coordenador do GCAP - Grupo de Capoeira Angola Pelourinho) foi boa, porque ele mostrou como foi seu percurso de capoeirista vindo do Rio de Janeiro e chegando numa cidade e num estado que diz que não há população negra. E que a capoeira daqui é caceteira. E a dificuldade de difundir uma capoeira que não é seduzida pelo mercado e nem por uma necessidade cearense dos homens andarem se mostrando e arrotando virilidade, masculinidade e valentia à toa. Enquanto os valores da capoeira angola são outros: se baseiam no respeito, na solidariedade e no espírito comunitário africano. Foi interessante ouvir o relato de experiência de Mãe Valéria de Logum-edé do Ilê Asé Omo Isé, (Memorial do Candomblé no Ceará) e Mãe Ziná da Tenda Senhores de Ogum, uma sacerdotisa da umbanda. Cada uma revelaram suas representações de como entendem a africanidade dentro do cenário cearense. E chegamos a conclusão de que os cultos de matriz africano-indígena são relegados à uma marginalidade social. Isso pelo menos, no caso da realidade que conheço mais de perto da Região Metropolitana de Fortaleza. A comunicação de Oswald Barroso, teatrólogo e pesquisador, foi muito rica. Através de fotos, o pesquisador passeou pelas máscaras africanas e sua repercussão no artesanato do Ceará, revelando através de um estudo comparativo que as danças dos Irmãos Aniceto se parecem com o que é feito na costa africana. O Bumba-meu-boi cearense de brinquedo, papelão e tecido em muito se parece com a relação do povo africano nas suas brincadeiras de terreiro com bois de verdade, mostrando a marca indelével da pecuária nos dois povos. O seminário foi uma oportunidade de vermos a relação que há entre África e Ceará e pelo que percebemos na fala de cada palestrante a aproximação é muito maior do que se imagina.

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