sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

CORPO NEGRO: HÍGIDO OU SEDENTÁRIO NA OBRA DE NORVAL BATISTA CRUZ

Este estudo é uma resenha da obra CRUZ, Norval Batista. Consciência corporal e ancestralidade africana – Fortaleza: Edições Demócrito Rocha, 2011. O livro visa captar como pessoas do povo de terreiros concebem a relação entre consciência corporal e ancestralidade africana. Norval Cruz identifica-se como pesquisador, negro, homem, atleta, naturista e baiano e é nessa configuração identitária, que ele entrelaça a pesquisa com um pouco de biografia. Cruz diz que passou a questionar a consciência corporal e ancestralidade africana aos 21 anos de idade, quando teve contato com o atletismo. Chegou a ser campeão baiano de corridas de rua. Influenciado pelo título, ele informa que montou a primeira corrida de rua, entre os moradores da república onde morava e amigos íntimos. Por essa época, já questionava a forma de gerenciamento das provas de pedestrianismo e a influência do modelo militar nos referidos eventos. Segundo Norval Cruz os movimentos sociais, de forma geral, não estão se preocupando com o corpo, negam sua existência, não o colocam em movimento, não o percebem como canal de conhecimento, não conhecem a linguagem não-verbal, enfatizando por demais a racionalidade, enfim, não tem consciência corporal. Consciência corporal é reconhecer o corpo como centralidade para todas as suas ações no mundo. É transitar entre o pensar e o sentir, é perceber o corpo na relação íntima com a natureza. É ter autopercepção; reconhecer sinais do corpo, a linguagem do corpo, o que ele fala. O pesquisador baiano observou a ausência de conteúdos de ancestralidade africana, nas práticas e nas referências teóricas dos movimentos sociais, inclusive, às vezes, daqueles que pretendem relacionar-se com a cultura negra nos seus aspectos sociopolíticos – movimento negro, grupos de dança afro, terreiros, associações. Norval Cruz relata o caso de um evento científico de entidade negras em 2004. Em que foi convidado para aplicar uma técnica de percepção de flexibilidade. Lá ele constatou entre os participantes que a maioria dos corpos estava rígida e tensa, caracterizando a dicotomia mente-corpo. O pesquisador baiano notou que apesar dos terreiros de candomblé, em princípio, estarem mais conectados com a cultura de matriz africana, nem sempre se encontra uma prática de consciência corporal associada à ancestralidade africana. Ele informa que no seu trabalho de terapeuta corporal já recebeu um pai de santo que apresentava rigidez generalizada e dependência química. Norval Cruz faz uma recuperação histórica sobre as origens filosóficas da negação do corpo. Voltando à era pré-socrática com Parmênides e Heráclito, no século V a C. À época, existia um confronto de ideais entre, por um lado, a visão mais fixa de Parmênides que defendia uma realidade imóvel, eterna, imutável, sem princípio, nem fim, contínua e indivisível e de outro lado, a de Heráclito que afirmava que todas as coisas estão em fluxo, sintetizando seu pensamento na célebre frase: “Não podemos banhar-nos duas vezes no mesmo rio, porque o rio não é mais o mesmo, e nós também não somos mais os mesmos”. A tendência que vigorou e ainda prevalece foi a de Parmênides. No período clássico, Platão reforça a tendência parmêndiniana dando ênfase ao inteligível em detrimento do sensível. Essas ideias platônicas vem de outro mundo, não sensível, sem olfato, sem audição, sem emoção, transcendente. Na Idade Média, Santo Agostinho reforça a racionalidade trazendo aspectos fundamentais sobre a relação entre teologia e filosofia neoplatônica transcendente, focando a mente humana, mutável e falível, trazendo uma grande pergunta: como atingir uma verdade eterna com certeza infalível? No século XVII, Descartes traz a superioridade racionalista e a dicotomia mente/corpo com a frase: “Eu penso, logo existo.” Ele comparava o homem a uma máquina (o relógio), cheio de engrenagens. Apesar da força do racionalismo cartesiano, alguns pensadores pós-cartesianos, como Spinoza, se mostraram mais abertos para outras dimensões dissertando sobre emoções humanas e unificando ética, metafísica e epistemologia. A partir de meados do século XVII, a ciência, influenciada pela visão dicotômica-cartesiana do homem-máquina, dividiu-se em especialidades. Essa forma de divisão foi estendida ao corpo, surgindo a pergunta: como adestrar esse homem-máquina ao nível da mecânica dos movimentos, gestos, atitude, rapidez e no nível do controle? O pesquisador naturista respaldado em Nilma Gomes fala dos sinais diacríticos do corpo negro (nariz, boca, cor da pele e tipo de cabelo) contrapostos ao corpo branco e que muitos pensadores brasileiros, amparados em teorias racistas de filósofos europeus, contribuíram para a imagem do negro como preguiçoso, feio e incapaz. O livro de Norval Cruz é relevante por combater a invisibilidade do negro no Estado do Ceará, onde o discurso oficial diz que “Não há negros no Ceará”, apesar da existência de mais de 60 quilombos. O livro contribui para refletir sobre o aumento das patologias da modernidade (cardiopatias, obesidade, sedentarismo, rigidez e estresse generalizado) nos corpos dos participantes dos movimentos sociais. A noção de ‘arkhé’ resgatada por Sodré serve para caracterizar as culturas que, tais como a negra, se fundam na vivência e no reconhecimento da ancestralidade africana. As culturas de ‘arkhé’ cultuam a Origem, não como um simples início histórico, mas como o “eterno impulso inaugural da força de continuidade do grupo”. A ‘arkhé’ admite conviver com várias temporalidades, mas não promove “a mudança acelerada de estado” como quer a Modernidade. A ancestralidade assenta-se na terra-mãe: “o que dá identidade a um grupo são as marcas que ele imprime na terra, nas árvores, nos rios”. Ou no caso dos negros da diáspora, em espaços de culto como os terreiros que se tornam depositários dos símbolos da Origem mítica. Como os negros escravizados no Brasil se viram em relação à ancestralidade? Ante o esfacelamento dos laços familiares e da desterritorialização forçosa, eles recriaram uma linhagem para a transmissão e preservação de sua comunidade. Tal linhagem foi providenciada, sobretudo, pelo terreiro de candomblé, enquanto espaço ritualístico de recomposição e reelaboração dos elos fragmentados pela sociedade que destinava o negro, quer seja ao lugar de subserviência, quer seja ao não lugar (sem direito a terra, e na pós-abolição também excluído da moradia e do emprego pela preferência dada ao imigrante europeu). Norval Cruz utiliza-se do método sociopóetico criado por Jacques Gauthier. Jacques Gauthier criou um método após suas experiências de vida, particularmente na Nova Caledônia no Pacífico, e no Brasil. A espiritualidade dos Kanak, povo indígena da Nova Caledônia e suas escolas comunitárias vinculadas à educação popular, que integram os saberes ancestrais com os conhecimentos científicos, na sua luta pela independência do colonialismo francês, foi uma primeira influência importante de interculturalidade. A socioppética gauthieriana respalda-se na interseção do círculo de cultura freireano, da pesquisa-ação de René Barbier e seu propósito de escuta sensível e da esquizo-análise deleuziana questionadora de processos de homogeneização e padronização da modernidade. Se o leitor me permite, agora eu vou compartilhar o que a temática do livro de Norval Cruz suscita em mim e terei que apelar para minha biografia. Eu tenho 42 anos, sou obeso e pratico pouco esporte (caminhadas e alongamentos). Às vezes que fui para o assentamento de trabalhadores rurais Mandu-Ladino em Pentecostes, senti dificuldade de me integrar nas atividades dos agricultores meus amigos. Eles tinham toda uma flexibilidade de se abaixar e roçar um mato ou de sentar no chão e ficar horas mexendo numas mudas de plantas nuns saquinhos plásticos que a mim me parecia uma tortura. Dessas atividades eu saía exausto. Ou seja, sou muito cerebral. Tenho dificuldades até de chorar. E é porque eu lido com poesia.

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