domingo, 22 de junho de 2014
MUZUNGU PULULU: O HOMEM BRANCO TRANSPARENTE DO ESCRITOR MANUEL CASQUEIRO
MUZUNGU PULULU: HOMEM BRANCO TRANSPARENTE DE MANUEL CASQUEIRO
AUTOR: CHARLES ODEVAN XAVIER
RESUMO: O Artigo esmiúça a obra Muzungu Pululu: Homem Branco Transparente do escritor de Guiné-Bissau Manuel Casqueiro. Procura analisar se o escritor africano conseguiu realizar um pacto autobiográfico. Para tanto nos amparamos na teoria do crítico da chamada escrita do eu Philippe Lejeune. Outra linha de investigação do artigo é saber se a obra de Casqueiro pode ser considerada Literatura dentro dos cânones ocidentais ou se ela seria literatura menor por ser confessional? Como há na obra uma indiscutível dimensão política e anti-colonial (ou seria pós-colonial?) consultamos a obra editada pelo historiador Albert Adu Boahen de Gana e a obra editada pelo cientista político Ali A. Mazrui do Quênia, ambas publicadas no Brasil pelo Comitê Científico Internacional da UNESCO para Redação da História Geral da África. Na condição de branco africano seria Casqueiro um griout ou um muzungo ouvinte?
PALAVRAS-CHAVES: Memorialismo, griout, narrativas, pacto autobiográfico, período colonial, pós-independência, Guiné-Bissau, Angola, literatura menor
ABSTRACT: The article scrutinizes the work Muzungu Pululu: Transparent White Man's writer Manuel Casqueiro Guinea-Bissau. It examines whether the African writer has achieved a pact autobiographical. To hold you both in the theory of critical writing I called Philippe Lejeune. Another line of investigation of the paper is whether the work of Casqueiro can be considered within the canons of Western literature or whether it would be a minor literature confessional? How is the work an undeniable political dimension and anti-colonial (or postcolonial would?) Consult the book edited by historian Albert Adu Boahen from Ghana and the work edited by political scientist Ali A. Mazrui from Kenya, both published in Brazil by the International Scientific Committee for the Drafting of the UNESCO General History of Africa. Provided African white one would Casqueiro griout muzungo or a listener?
KEYWORDS: Memorialism, griot, narratives, autobiographical pact, african colonialism, post-independence, Guinea-Bissau, Angola, minor literature
PRELIMINARES
"Um livro é um grande cemitério, onde, na maior parte dos túmulos, não se podem mais ler os nomes apagados"
Marcel Proust
"O intuito básico deste livro é o de fornecer aos leitores pretextos para um novo olhar sobre a África " seus povos, suas histórias e suas culturas.["]Muzungu Pululu é a concretização de um sonho. Narra histórias vividas, escutadas ou baseadas em acontecimentos sucedidos nos período colonial e pós-independência. Assim sendo, não é um livro inteiramente autobiográfico."
Manuel Casqueiro
"Prefácios, diários, anotações, mesmo memórias, escreveram-se em busca de formulação, ou esperança, de um leitor que pudesse ler as obras, os momentos históricos, para além de seus dilaceramentos, vistos como circunstanciais"
Flávio Aguiar
Ao lermos Muzungu Pululu do escritor africano Manoel Casqueiro somos convidados a fazer várias reflexões sobre o hábito de escrever livros e contar histórias ou estórias.
Qual a impressão geral da obra? No nosso parecer o livro é uma colcha de retalhos ou na própria voz do escritor:
"Quando eram apenas amareladas anotações guardadas numa pasta de cartolina verde, nada representavam nem valor tinham a não ser para mim que as tinha escrito, durante anos, pelos caminhos por onde o destino me levou. No entanto, ao se unirem, dispostas em ordem e credoras de uma adequada orientação estética e literária, formaram uma trama, deram um livro. Méritos do amigo escritor Alan Santiago que, além de me ter proposto o desafio de escrevê-lo, teve o cuidado em me guiar ao longo do processo editorial " pessoalmente ou por e-mail" p. 11
Assim, o próprio narrador não estava muito convencido do valor literário e foi o amigo escritor que enxergou nas anotações algum tesouro escondido.
Então, se Casqueiro não é propriamente um escritor o que ele é ou seria? Um memorialista, um diarista, um autobiógrafo - nestes gêneros de escrita considerada por Philippe Lejeune como escrita do eu?
Muzungo Pululu deve ou merece ser lida? A resposta depende do critério e do cânone a que se queira vincular a obra. Historiografia? Literatura? Como classificar a obra de Casqueiro?
São essas as questões iniciais deste artigo.
OS GÊNEROS TEXTUAIS DA OBRA
Em Muzungu Pululu diversos gêneros textuais compõem a urdidura dessa verdadeira colcha de retalhos. Nela há cartas, pequenos contos, crônicas, diários compondo um rico painel que pretende dar conta das histórias e estórias vivenciadas ou ouvidas pelo autor que nasceu em 1946 num bairro pobre da capital de Guiné-Bissau.
CASQUEIRO E O PACTO AUTOBIOGRÁFICO
Manuel Casqueiro estabelece um pacto autobiográfico com o leitor? Para entendermos a questão veremos como uma intérprete da teoria de Philippe Lejeune apresenta o problema:
"Desta gama de assuntos tratados pelo teórico francês, o mais importante e discutido é, sem dúvida, o conceito de "pacto autobiográfico" que é utilizado tanto para delimitar a fronteira entre autobiografia e ficção, como também para revelar a importância da leitura na hora de se considerar um texto como autobiográfico. Assim, a autobiografia seria tanto uma forma escrita, quanto uma forma de leitura. Segundo Lejeune, a atitude na hora da leitura é fundamental para considerarmos um texto como autobiográfico, classificação aclarada na determinação do "pacto" que se firma entre quem escreve e quem lê o texto proposto (LEJEUNE, 1994, p.133).
O conceito de "pacto autobiográfico" foi a solução encontrada para o problema de estabelecer fronteiras entre os modos discursivos fictícios e os modos discursivos factuais. Trata-se, por conseguinte, de uma forma de contrato entre autor e leitor na qual o autobiógrafo se compromete explicitamente não a uma exatidão histórica impossível, mas a uma apresentação sincera de sua vida. Quem escreve se compromete a ser sincero e quem lê passa a buscar revelações que possam ser confirmadas extratextualmente.
Apresentado originalmente em 1973 em "O pacto autobiográfico", este conceito foi revisto posteriormente e publicado numa edição de 1982 com o título "O pacto autobiográfico (bis)". No entanto, o tema destes estudos aparece em todas as obras de Lejeune e sofre algumas modificações consideráveis ao longo da sua vida de estudos dedicados à autobiografia."
Na narrativa Minha História Começou 48 Horas Antes de Eu Nascer (p. 19) Casqueiro faz uma tentativa de genealogia contando a história da deserção do pai que era tenente do exército português, o qual foi expulso do mesmo por se recusar a mandar os subordinados conterem a coronhadas um protesto de operários contra a ditadura do fascista Estado Novo de Salazar, numa fábrica nos arredores de Lisboa.
Assim, estabelece com o leitor um pacto de dizer a história do clã com a mais absoluta sinceridade. E o leitor é apresentado a um universo de escritura engajada à esquerda.
Mas nem tudo que Casqueiro conta no livro ele testemunhou de fato, como a narrativa referida anteriormente que ele provavelmente ouviu dos pais.
Como, por exemplo, a carnificina no caís do Pijiguiti em 3 de Agosto de 1959, quando o autor devia ter apenas 13 anos e talvez cedo demais para digerir o assassinato de 60 trabalhadores e 100 feridos por militares num piquete salarial de estivadores da empresa Casa Gouveia. Ou então com a criação em 1956 do Partido Africano para a Independência da Guiné e Cabo Verde " PAIGC; fundado pelo engenheiro-agrônomo Amílcar Cabral, que o então adolescente Casqueiro alega ter conhecido.
Em Apartheid à Portuguesa I Casqueiro recua até o ano de 1918 quando um decreto-lei emitido pelo governador português Carlos Ivo de Sá Ferreira iria definir toda a sua vida escolar 36 anos depois. E não só sua vida escolar, como a sua própria cidadania. A partir do fato de que foi recusado por várias escolas para prosseguir os estudos primários por ser filho de desertor e degredado do Exército português, Casqueiro passou a ser um branco de segunda classe.
O PERTENCIMENTO DE CASQUEIRO
Casqueiro era um branco estudando numa escola missionária católica dedicada aos indígenas pretos. E passava a brincar com meninos pretos e pobres, porque ele também era um branco pobre.
Isso talvez determinou ou condicionou as escolhas políticas e ideológicas do Casqueiro adulto, que chegou a pertencer a guerrilha angolana nas lides do exército do MPLA; assim como condicionou a escolha desta ou daquela narrativa que confirmasse suas filiações políticas, como as narrativas que envolvem o menino Kamba Adiosh que foi expulso da escola por fazer perguntas de natureza anti-colonial aos professores brancos.
Ou o menino Wayaki que preferiu se enforcar a servir de "brinquedo" para os filhos do fazendeiro branco.
CASQUEIRO: ATEU OU CRENTE NA RELIGIÃO TRADICIONAL?
Em duas narrativas o marxista-leninista e nacionalista Casqueiro revela uma ambigüidade com os cultos e costumes tradicionais africanos.
Na narrativa A Fúria do Chefe Namba Contra o Raio Enviado pelos Deuses que Matou suas Duas Vacas Gordas que começa: "Na antiguidade, o raio era uma expressão divina" p.50
Nas páginas seguintes ele descreve e narra a ambígua revolta do chefe da aldeia Quikembo que ousa naturalizar o raio e ao mesmo tempo amaldiçoar os deuses.
Ou em O Leão Vermelho onde Casqueiro vai visitar um ancião negro e ouvir seus "causos" saborosos. Onde o velho vô Ogoné relata o caso de um homem que morava no vilarejo e após se meter em bruxarias, é condenado pela divindade da montanha a se transformar num leão vermelho.
Casqueiro ouve a narrativa, mas duvida se ela é história ou estória.
MUZUNGU PULULU: HISTORIOGRAFIA? LITERATURA?
Para essa sessão do artigo valemo-nos do artigo de Sheila Dias Maciel, intérprete brasileira da obra do crítico francês Philippe Lejeune.
"Os gêneros confessionais (memórias, diário, autobiografia) são tão antigos no universo literário quanto o desejo humano de salvar da morte a sua existência. Essas formas narrativas escritas em primeira pessoa, no entanto, foram, por muito tempo, consideradas como menores e seguiram seu curso apartadas das altas literaturas.
A separação entre a Literatura propriamente dita e as obras confessionais é fruto de uma visão simplista que considera estas narrativas como formas de "não ficção", devido aos resquícios autobiográficos anunciados. Contudo, não há literatura que não contenha elementos da realidade, assim como a chamada literatura intimista ou confessional não está isenta de desvios da linguagem, posto que é impossível transpor qualquer realidade fielmente retratada para a página escrita. Os gêneros confessionais, portanto, são, como qualquer discurso, uma produção humana entrecortada de ficção."
Então numa justaposição de ficções e memórias, Muzungu Pululu é uma obra historiográfica e ao mesmo tempo literária. Ou como diz o autor é um "pretexto" para se conhecer o continente africano de quem o conheceu de e por dentro. De alguém que mesmo branco, nasceu lá e vivenciou muita coisa do período colonial e pós-independência, até chegar ao ponto de decepcionar-se com os rumos autoritários e burocráticos da independência angolana, que provocou o seu auto-exílio.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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