terça-feira, 24 de junho de 2014

COMO OS ORIXÁS APARECEM EM TRÊS TARÔS DO MERCADO EDITORIAL BRASILEIRO

O propósito deste estudo é esmiuçar e confrontar a constituição estética e ideológica de três tarôs de orixá existentes no mercado editorial brasileiro. Os tarôs que iremos examinar são respectivamente o da Editora Pallas, o da Artha Editora e o da Pensamento/Llewellyn editora. Para dar conta das analises estéticas lemos teóricos das artes plásticas . Para dar conta dos aspectos sócio-religiosos envolvidos no problema lemos antropólogos da religião . PARA QUE SERVE UM TARÔ DE ORIXÁ? O leitor que parou para ler esse texto deve ter algum grau de iniciação ou no mundo dos orixás, nkices e voduns ou no mundo dos arcanos do tarô. Mas caso não tenha nenhuma noção do que faz um baralho de tarô: irei tentar explicar. O tarô é um oráculo que serve para se pedir conselhos em situações problemas. Basicamente é isto. Contudo, o leitor deve questionar: mas baseado em que coisas esse “oráculo” aconselha? A resposta para essa questão não é simples, pois o Tarô, ou para ser mais preciso, os tarôs são baseados no universo de referencia de seu autor. Pois os tarôs modernos têm autoria reconhecida em cartório. Já os tarôs mais antigos têm autoria anônima ou atribuída. O TARÔ DA EDITORA PALLAS O primeiro tarô de orixá que tivemos acesso foi o de Eneida Duarte Gaspar . Ao olharmos as belas cartas do tarô da Pallas, constatamos que apesar de se chamar tarô dos orixás, o que vincularia o tarô imediatamente ao universo dos candomblés de rito queto/nagô, vê-se entre os arcanos maiores, por exemplo, o arcano zero com uma divindade da quimbanda, Zé Pelintra . Os caboclos são o arcano 21 e os pretos-velhos são o arcano 20. Revelando que, utilizando divindades do panteão umbandista, Eneida Gaspar afro-brasileirou o seu tarô. Entretanto, em arcanos menores ela preferiu africanizar o tarô, como se pode perceber nas filigranas do naipe de ouros consagrando a revelar os fundamentos dos noves oruns (céu/além) dos iorubas nigerianos, enquanto que no Brasil o candomblé dividiu o universo em apenas orum e aye – a terra, simplificando o referencial devido a influencia do céu e inferno católicos. Devemos questionar o estranho critério que levou a autora a associar o arcano 15- O Diabo a Exu. Os estudiosos das religiões afro-brasileiras sabem que o no Brasil o orixá Exu foi egunizado - ou até poderíamos dizer que foi quiumbanizado. De orixá moleque, ambíguo, travesso entre o bem e o mal relativos, o compadre se tornou o representante do mal absoluto segundo os pastores eletrônicos, tipo Edir Macedo e o Silas Malafaia. Então não sei se faz bem a Exu associá-lo ao Diabo bíblico. Já que em nada se parecem. Enquanto o Diabo bíblico, segundo o livro Satã: uma biografia seria uma espécie de funcionário detestável do governo despótico do Deus de Moisés; Exu, ao contrário deste não teria função de tentar nem condenar ninguém, já que pós-mortem na cultura iorubana não é desejado nem ansiado. Morrer nas religiões tradicionais africanas é um período rápido. O bom mesmo é estar vivo e participando de tudo o que a vida oferece de prazeroso. Não há condenação eterna no além iorubano, pois depois de um certo tempo os mortos voltam a encarnar nos descendentes de seu clã. Maiores detalhes conferir a obra da antropóloga Ronilda Yakemi Ribeiro – Alma Africana no Brasil: os iorubás. Deste modo, penso que Eneida Gaspar apenas repetiu o senso comum. Já Zolrak - optou por outro caminho. No seu tarô há a carta do Diabo, associada à luxuria, negatividade, magia negra, vampirismo energético como na maioria dos tarôs conhecidos e há a carta de Exu, associada à virilidade masculina. No arcano 15 de Eneida Gaspar ela repetiu o cânone consagrado aos arcanos 15 tradicionais. Há uma figura maior que representa o Diabo, ou pelo menos, um exu rei, coroado e de tridente (como manda a quimbanda), com uma capa vermelha e preta que se transmuta em asas de morcego. Numa das mãos segura o tridente mencionado, que a tradição cristã tirou do Deus Netuno da mitologia grega. Na outra mão segura uma garrafa de aguardente, simbolizando os vícios alcoólicos. E como nas cartas tradicionais há mais duas figuras como que acorrentadas. Uma mulata acorrentada e com os seios de fora levanta a saia vermelha e mostra o corpo nu para o mulato. Um mulato acorrentado a um fogareiro revela ansiedade. Ambos, o casal de mulatos está dentro de pequenos círculos mágicos cheios de chamas amarelas. A chama do fogareiro também é amarela que simboliza intelectualidade ativa. Na carta predomina o vermelho o que revela o dinamismo agônico do sexo e da boêmia. O semblante da testa franzida do Exu coroado revela malícia e picardia. Já a mulata esboça uma gargalhada o que a deve associar a pomba-gira da quimbanda. O mulato está de costas e não podemos ver seu semblante, mas seu rosto esta voltado para as chamas do fogareiro de barro do qual saem correntes que o prendem pelo abdome, justamente o chacra das paixões grosseiras no corpo astral humano. No tarô da editora Pensamento não há arcano 15, mas há o arcano do Diabo. O tarô da Pensamento foi ilustrado por Durkan. E a carta do Diabo tem um grafismo bem pobre. Não há a simetria do desenho de Walter Tunia do tarô lançado pela Editora Pallas. Sendo assim, o resultado ficou próximo de uma caricatura escolar muito mal desenhada. Ou talvez tenha sido essa a intenção do artista-plástico: representar o Diabo como algo grotesco, tosco, disforme e mal acabado. Realmente o mito do Diabo cristão foi uma das ideias mais idiotas perpetradas por Papas e pastores. Dividir o universo em apenas duas metades antagônicas: de um lado Deus (o bem absoluto) e de outro o Diabo (o mal absoluto).É realmente uma forma de empobrecer um universo que cabe muito mais possibilidades e cores. Dos tarôs analisados, o mais surpreendentemente africanizado é o da editora Artha. Este tarô é de autoria de Conceiçao Forty, foi ilustrado por Cláudia Krindges e teve consultoria de Ivoni Aguiar Tacques. Nele não há a carta do Diabo, mas há o arcano 15 representado por Exu orixá. Nele vemos um negro descalço, vestido de preto e vermelho segurando um enorme ogó, bastão de madeira com a cabeça em formato de pênis. Na carta o negro usa um saiote vermelho e negro e têm os braços cheios de brajás, fileiras de búzios. Nas lendas africanas, como nas narrativas bíblicas, não há muita precisão historica. Exu ora aparece como um orixá primordial, sendo representado pelo fogo da brasa no inicio da criação, ora aparece como uma espécie de garoto de recados que trabalha sob pagamento e que mora nas ruas africanas. No jogo de búzios dos candomblés brasileiros Exu é associado ao primeiro odu, quando um búzio está aberto e os 15 demais caíram fechados no tabuleiro e chama-se Okanran. Na maioria dos manuais de Jogo de Búzios que consultamos é quase sempre um odu perigoso e que precisa de muitos cuidados quando cai para um consulente. Talvez até os religiosos dos culto afro-brasileiros que escreveram os manuais do Jogo de búzios existentes no mercado editorial tenham absorvido as superstições cristãs de satanizar Exu. Por isso, dos tarôs de orixá analisados, realmente o desenhado por Cláudia Krindges da Editora Artha é o que mais se aproxima do que é enunciado pelos contos míticos nigerianos. Cabe perguntar por que os missionários cristãos ao chegarem nos vilarejos africanos e verem fetiches consagrados a Exu, o associaram ao Diabo cristão. Para quem nunca viu, os africanos esculpem enormes pênis eretos no barro ou na madeira nos assentamentos consagrados a Exu. O africano não-cristão ou não-islâmico tem um relacionamento natural com a sexualidade e ao invés de sacrificá-la e reprimi-la como manda Moisés no Levítico, eles a ressaltam.Pois enquanto a religião de Moisés e seus derivados são pautados pela pulsão de morte – basta ver o símbolo do cristianismo: um moribundo na cruz – as religiões tradicionais africanas (das quais o candomblé brasileiro herdou inúmeras coisas) são pautadas pela pulsão de vida – basta ver a ginga da capoeira e alegria do samba. Tudo que é vivo assusta o Cristão, principalmente quando o vivo é mulher ou gay. Tudo o que se afirma em contraposição ao macho branco, ocidental, patriarcal assusta o Malafaia. Para o cristão o corpo é sujo e fonte de pecado, a alma é que deve ser valorizada. Já na tradição iorubá o corpo (ara) é celebrado porque é com ele que vivemos e respiramos e não há conceito de pecado, pois a religião tradicional africana não lida com culpa. COMO OS PRATICANTES DE CANDOMBLÈ LIDAM COM O TARÔ DOS ORIXÁS? Não fizemos uma rigorosa pesquisa estatística para responder essa pergunta. Mas numa pequena amostragem populacional (três informantes) percebemos que o tarô dos orixás não desperta interesse por parte dos adeptos de candomblé. Os três informantes nunca tiveram acesso ao tarô dos orixás ou nem sabiam que existia no mercado editorial brasileiro esse tipo de oráculo. Um ogã disse que nós deveríamos ter muito cuidado ao lidar com tarô porque segundo ele, quem responde no tarô são eguns (desencarnados). E revelou não ter interesse nenhum em jogar o tarô. Ele, como os outros dois informantes, preferem obter respostas de orixás, diretamente pelo método tradicional no candomblé brasileiro: a consulta aos búzios (meridilogun) . Então cabe perguntar: quem se interessa em comprar tarô de orixá?E a resposta é uma hipótese: os tarólogos. Principalmente eles, já que quem é estudioso de tarô geralmente não consegue se conformar em ter só um tipo de tarô. Mas suponho também que devido a qualidade excepcional dos tarôs analisados eles acabem despertando o interesse de curiosos que vão as livrarias e procuram o setor de religiões afro-brasileiras. CONSIDERAÇÕES FINAIS O propósito desse estudo não foi subsituir a consulta aos próprios tarôs analisados, mas de ser uma reflexão sobre a importância de ver o tarô como uma fonte iconográfica interessante sobre o universo das religiões afro-brasileiras, da diáspora negra, assim como, ser uma forma interessante de mergulhar na chamada África continental.

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