segunda-feira, 23 de junho de 2014

A ÁFRICA NO TRAÇO DA HQ DO BRANCO AMERICANO JUDEU WILL EISNER

Saga – S.f. narrativa heróica cheia de peripécias. Herói – [fem.: heroína] sm. 1.homem notável por sua bravura 2.personagem central Minidicionário Houaiss Griot – espécie de menestrel da chamada África negra ou subsaariana. Ou livro ambulante. Este artigo pretende analisar a obra em quadrinhos “Sundiata, o leão do Mali: uma lenda africana”, baseada num canto épico chamado Sundiata Fasa, em língua malinke e recontado pelo quadrinista americano Will Eisner (1917-2008) Sendo assim este estudo é ao mesmo tempo antropológico-etnográfico e crítica de artes-plásticas; sem falar no fato de que nele valo-me de meus conhecimentos de teoria da literatura também. Mas há um senão: sou um não-negro e um não-branco, sou um mulato de pele clara. E Will Eisner é um não-negro também. E ambos resolvemos nos meter com a chamada África Subsaariana ou a África de pele escura e cabelo carapinha. Será que na condição de não-negros somos autorizados a falar pela África negra? Será que só um escritor negro pode falar de negritude? Será sempre o olhar de um não-negro um olhar oblíquo sobre negritude? No caso de Will Eisner ele não pode mais se defender porque já morreu ou se pronunciar sobre o assunto. Restou para eu resolver a questão. Vamos a ela. Outro senão que já é habitual para os leitores dos meus ensaios críticos: nunca fui à África. E presumo que o quadrinista americano Will Eisner também não tenha ido e talvez tenha se baseado na farta iconografia africana dos acervos dos catálogos dos Museus Antropológicos espalhados pelo o mundo ou nas coleções particulares de apreciadores de arte africana. Mas é uma suposição e quem sabe se Eisner não tenha ido lá no Mali, conferir a lenda do herói Sundiata de perto? Nunca poderemos saber, a não ser que tivéssemos acesso à correspondência de Eisner para seus editores e familiares. E isso nós não temos. Partindo desses senões e premissas, iremos falar de como o quadrinista americano, um branco, configurou plasticamente a sua África que pode não ser realmente a África negra, mas a África do colonizador europeu. A HQ de Eisner prende do começo ao fim e foi muito bem desenhada. Eisner tem domínio do tracejado e do ritmo narrativo, já que ele é ao mesmo tempo o desenhista e o roteirista da estória. UM POUCO DO ENREDO DE SUNDIATA No Início do Século XIII,às margens do rio Senegal no oeste africano as pessoas eram subjugadas pelo famoso rei de Sasso. O Rei se chamava Sumanguru. Ele expandiu suas conquistas derrotando Mali, nação que havia sido fundado no Rio Níger ao sul de Koumbi Sahel pelos malinkes, povo mercador de sal e ouro. Depois de anos de opressão cruel surgiu um jovem príncipe malinke, chamado Sundiata que liderou seu povo e derrotou Sumanguru. A luta contra o vilão que possuía uma magia extraordinária deu fama à grande batalha que ocorreu em Kirina. O resultado foi uma derrota espetacular de Sumanguru pelo povo de Mali. Daí surgiu numerosas lendas de Sundiata, que foram narradas oralmente através dos anos pelos griots, contadores de história africana. Segundo os historiadores existem trinta versões dessa saga. Esta é uma delas. Will Eisner privilegiou uma versão estranha narrada por uma… pedra. Isso mesmo: uma pedra narra a saga do ganancioso Rei de Sassu e ela se posiciona da seguinte forma no começo da narração: Eu sou a grande pedra cinzenta Prestem atenção que eu vou contar como nasceu o grande país do Mali p.3 O rosto da pedra é hierático e maligno e logo nas páginas seguintes o leitor saberá o motivo. O leitor ocidental deve estar perguntando por que uma saga ser narrada por uma pedra. Isso é verossímel? Lemos Todorov, o teórico do fantástico em literatura, para o crítico russo: O fantástico é a vacilação experimentada por um ser que não conhece mais que as leis naturais, frente a um acontecimento aparentemente sobrenatural. O conceito de fantástico se define pois com relação ao real e imaginário, e estes últimos merecem algo mais que uma simples menção pp. 15-16 . Do trabalho de Todorov concluímos que a Lenda de Sundiata está dentro do cânone daquilo que o crítico russo chama de maravilhoso, pois na estória do herói do povo malinke há a total imersão no sobrenatural. E uma pedra pode falar? Para a cultura judaico-cristã - apesar de uma serpente falante e uma mula que dá pitacos- geralmente é o animal humano: o homo loquens. Na cultura africana presumo que mesmo os cristãos e os muçulmanos que lá moram não duvidariam de uma pedra falante, sagaz e maligna como a da saga de Sundiata, tal é o grau de comprometimento que as religiões não-africanas estão comprometidas com o folclore das chamadas religiões tradicionais. Como se vê na obra do romancista moçambicano branco Mia Couto. Os pesquisadores brancos chamam essa África das religiões tradicionais de animista como o historiador gaúcho Giordani . Eu mesmo cometia o erro de chamar essa religião mais rudimentar que concebe os elementos naturais como dotados de alma, espírito: de animismo. Até que topei com o livro do pesquisador negro Nei Lopes . A partir deste livro vi que conceitos como fetichismo e animismo eram conceitos eurocêntricos e que o melhor seria chamar as religiões rudimentares de religiões tradicionais. Os africanos Boubou Hama e J. Ki-Zerbo tecem considerações sobre essa questão do animismo. Contudo, graças ao portal Domíniopúblico.gov eu tive acesso aos pdf’s da notória coleção publicada pela UNESCO e SECAD-MEC, com a História da África principalmente o primeiro volume que tem a metodologia da coleção inteira e a pré-história da África . Neste volume tirei muitas dúvidas quanto às concepções eurocêntricas de que a chamada África subsaariana não tem história, só mito. Sendo assim não haveria Heródotos negros, mas apenas rapsodos. Joseph Ki-Zerbo cita um norte-africano como o primeiro historiador africano nos moldes ocidentais: Ibn Khaldun (1332 1406) Outro grande pesquisador negro brasileiro é o historiador Wilson do Nascimento Barbosa , que me apresentou o revelador conceito das nove portas da cultura africana. Segundo ele há para se entender a religião tradicional africana há que se entender as nove portas, que como os noves buracos do corpo, são nossas ligações com o além. E através do conceito de nove portas é que podemos entender porque há uma figura arrogante e poderosa como o Rei Sumanguru na trama. O que narra esta estranha pedra cinzenta? A origem do continente africano onde reinava os animais e depois passou a reinar os homens, vindos de longe. Mas os humanos descobriram que havia no meio do mato os espíritos e teriam que distinguir os maus dos bons, para poder com eles governar o mundo natural. Os homens só passaram a reinar sobre os animais quando descobriram o segredo dos reinos da natureza. Segundo a pedra cinzenta enquanto os bons espíritos ajudavam a todos, os maus ficavam à espreita. Assim num plano o leitor vê a pedra cinzenta dizer que é a pedra cinzenta do mal e que está à espera de homens maus. Até que um africano raivoso com lança, escudo e, vestido com trajes típicos árabes, se apresenta para pedra cinzenta gritando: Eu sou Sumangaru, Rei de da Terra de Sasso !! p. 5 E se gaba: Conquistei essa terra com magia, medo e força!! Sou temido por todos!! p.5 Mas na psicologia do Rei Sumangaru também há espaço para lamúria: Arre! Sasso é uma terra pobre e pedregosa. Não estou satisfeito! p.6 É quando ele ouve a voz, vindo da pedra cinzenta: É claro que não! É porque você é ganancioso p.6 E ele se levanta surpreso e diz: Quem ousa falar assim comigo…? Uma reles pedra cinzenta! p.6 E se irrita com a pedra cinzenta: Pedra insolente…Sou Sumanguru, Rei de Sasso! p.6 E a pedra cinzenta ri cínica: E eu sou a pedra cinzenta do mal…que lhe pode dar grandes poderes! Deixe-me servi-lo. Quando vejo um homem mau, logo o reconheço! p.6 A pedra cinzenta na página seguinte promete várias coisas ao ambicioso Rei Sumanguru: dar-lhe o poder das trevas, a coragem da águia, a astúcia de uma cobra e poder sobre todas as forças da natureza. Mas o ambicioso Rei não ouve o principal, que todas aquelas benesses tinha um preço e o Rei ouviu, mas não escutou: ele a partir daquele momento pertenceria a ela. Assim, a partir daquele momento com o poder misterioso concedido pela pedra cinzenta o Rei Sumanguru se tornou mais arrogante e passou a perseguir implacavelmente os povos e vilarejos vizinhos. Utilizando sempre do recurso da feitiçaria. Mas a onipotência, onisciência e onipresença do Rei Sumanguru tinha limites e só tardiamente ele ficou sabendo da existência de um povo pacífico que vivia numa terra fértil e com bens que podiam ser pilhados . E na trama da História em Quadrinhos o povo pacífico tem vestes e hábitos bérberes. E eram liderados por um sábio patriarcal chamado Nare Famakan. O leitor pode estar confuso: estou falando do Oriente Médio ou da África? Eu estou falando de ambos e ambos se cruzam através das caravanas históricas e do comércio entre estes reinos. A psicologia de Nare Famakan se assemelha parcialmente ao de Moisés bíblico: Somos um povo orgulhoso…e um dia seremos uma grande nação p.9 A diferença entre Nare Famakan e o Moisés é pelo fato de que quando Jeovah se zangava, Moisés era obrigado a matar crianças e velhos de vilarejos infiéis. Mas a tese do povo eleito é muito parecida aqui. E o povo malinke do Mali fértil, seguidor do sábio patriarca Famakan eram hábeis mercadores e tinham muitos bens e por isso conseguiram notoriedade entre os mercadores de outras regiões. Só que essa fama chegou aos ouvidos do Rei Sumanguru, que ganancioso resolveu guerrear e conquistar o Mali. O Rei Sumanguru vai para um descampado fora de seu palácio onde soube a notícia de um mercador que passou por Mali e lá invoca a pedra cinzenta, que inesperadamente aparece. Ou seja, a pedra cinzenta não tem a onipresença de Deus – tenha ele o nome que cada cultura queira lhe dar – mas tem ubiqüidade e assim como em todo lugar há uma pedra. Lá está ela, para atender os desejos do Rei Sumanguru. O Rei convoca a pedra cinzenta para ajudá-lo a conquistar o povo de Mali e a mesma informa que basta que ele use os poderes que ela lho concedeu, mas adverte quanto ao pequeno príncipe Sapo. O Rei arrogante mais uma vez não escuta a pedra cinzenta e a chuta, dizendo que o príncipe é um menino aleijado. Como os boatos se espalham. Um mercador avisa ao povo de Mali que o terrível Rei de Sasso quer guerrear com eles e eles se reúnem para decidir como armar-se e com quais estratégias enfrentar o Rei Sumanguru. O pequeno príncipe coxo escuta a conversa e diz que quer lutar com eles. Mas eles riem dele. O povo de Mali avista o exército de Sumanguru se aproximando e o compara com uma nuvem de gafanhotos e resolvem utilizar da estratégia militar do chifre do búfalo. Sumanguru invoca o poder do vento que atira os guerreiros do povo de Mali para longe. E logo O Rei de Sasso vence a guerra com sua fetiçaria e comemora os despojos da guerra indo até a aldeia vencida. Lá conhece o pequeno Sundiata e o poupa por achar que ele não representa ameaça. Enquanto Sundiata chora a perda de seus familiares, sua mãe o consola dizendo que ele será um grande rei no futuro e que deve se entregar aos cuidados do velho xamã da aldeia. O termo que Eisner usa na HQ é xamã, mas se o Mali fosse na África central e tivesse um tronco lingüístico bantu; o correto é que esse velho que vai cuidar de Sundiata seria um nganga ou um conhecedor das noves portas . O velho xamã ou nganga entrega um bastão ao pequeno Sundiata e ordena que ele se ponha em pé. Sundiata alega que não conseguirá agüentar o peso das pernas. E o nganga comemora porque Sundiata consegue erguer-se. E avisa que ele deverá se preparar para assumir o trono. Pelos planos narrativos o leitor subtende que após isso houve uma iniciação ao pequeno Sundiata que conhece os segredos da floresta, tornar-se veloz como a gazela, habilidoso caçador trazendo alimento para a aldeia. Enquanto isso o Rei Sumanguru continuava pilhando outros povos sem que ninguém contestasse sua perversa soberania. Sundiata era respeitado pelos malinkes pela sua coragem, sabedoria e sua notoriedade foi transmitida pelos mercadores até o Rei de Sasso. Sumanguru cético quanto as qualidades guerreiras do “menino” que conheceu há alguns anos atrás pede que o matem e tragam a pele dele. A velha mãe de Sundiata intui através de sua mediunidade que o Rei de Sumanguru quer arrancar a pele de seu filho e pede para ele fugir para casa de um tio. O que pude entender da trama da HQ é que enquanto o velho xamã ou nganga iniciou Sundiata nos segredos da floresta; o Tio Mussa lhe iniciará nos segredos das táticas de guerra. No vilarejo onde Tio Mussa mora há intercâmbio com os homens que foram derrotados pelas tropas do Rei Sumanguru. E estes homens vêemem Sundiata um líder. O Tio Mussa avisa ao sobrinho Sundiata que o Rei Sumanguru tem um calcanhar de Aquiles: o esporão de galo. Basta o sobrinho flechar Sumanguru com o esporão de galo que a magia deste acabará. O Exército de Sundiata resolve ir até o Reino de Sasso enfrentá-lo. E Sundiata no topo das montanhas repete a estratégia do chifre do búfalo. O Rei Sumanguru consegue derrotar parte do exército de Sundiata invocando o poder do tremor de terra. Sumanguru convoca o poder do raio que abate o cavalo de Sundiata. E o herói resolve pegar o esporão de galo e armar a flecha. Há uma luta corpo-a-corpo entre Sundiata e Sumanguru. E quando o Rei de Sasso se prepara para lançar mais uma vez o poder do raio. Sundiata atira a flecha que atinge o braço de Sumanguru. E este perde seu poder mágico. Sumanguru foge das tropas de Sundiata escalando as montanhas. E no topo da montanha o Rei de Sasso topa com a pedra cinzenta que diz maliciosa: Então Sumanguru, você agora está pronto para se juntar a mim? p.30 E súbito se abre uma fenda na rocha e a pedra cinzenta convida Sumanguru para se esconder nela. Sumanguru entra e a caverna se fecha. Sundiata procura pelo paradeiro do vilão e quando desce da montanha avisa ao restante da tropa que Sumanguru fugiu para o outro mundo e que os deixará em paz. Quando Sundiata chega ao vilarejo com suas tropas é entronizado Rei do Mali. E nas páginas seguintes passam-se os anos e o Reino de Mali prospera. E lá Sundiata reinou soberano e amado pelo povo até ficar bem velho. E assim a pedra cinzenta termina sua narração com um sorriso misterioso. CONSIDERAÇÕES FINAIS Vimos ao longo do artigo, que o quadrinista Will Eisner configurou uma África berbere entregue às práticas da religião tradicional. Se ele foi fiel ao Mali, só se eu tivesse ido lá para saber, pois nunca consegui que nenhuma fundação ou universidade bancasse uma viagem minha àquelas plagas, onde poderia morar por um tempo e dizer in loco se o que dizem os brancos é verdade ou não. Contudo, mesmo que fosse à África talvez tivesse dificuldade de penetrar em seus segredos pela barreira das inúmeras línguas e pela minha cor de pele mais clara, que poderia causar certo distanciamento dos costumes cotidianos dos vilarejos.

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