domingo, 22 de junho de 2014

ESTRATEGIAS DE LEGITIMAÇÃO DISCURSIVA EM LIVROS DE UMBANDA

1. Discurso 1.Discurso é a linguagem posta em ação, a língua assumida pelo falante. (Sin.: FALA) 2. O discurso é a unidade igual ou superior à frase; é constituído por uma sequência que forma uma mensagem com um começo, um meio e um fim. (Sin.: ENUNCIADO) Na problemática anterior à análise do discurso, o termo discurso só podia ser sinônimo de enunciado do ponto de vista lingüístico. A oposição enunciado/discurso marcava simplesmente a oposição entre o lingüístico e o não-linguistico. A lingüística operava sobre os enunciados que, reagrupados em corpus, se ofereciam à análise; as regras do discurso, i.e., o estudo dos processos discursivos que justificam o encadeamento das sequências em frases, eram remetidas a outros modelos e a outros métodos, em particular a toda perspectiva que levasse em consideração o falante, como a psicanálise; é nesses termos que J. LACAN propõe o problema inicial do discurso quando estuda a função e o campo da fala e da linguagem em psicanálise.[…]Com a frase, deixa-se o domínio da língua como sistema de signos; o domínio abordado é o do discurso, em que a língua funciona como instrumento de comunicação. […] Outro uso do termo discurso feito por E. BENVENISTE[…] Na oposição narrativa X discurso.Importa assinalá-la, pois a concepção atual do discurso não destaca essa oposição, que correrá, assim, o risco de ser fonte de confusão. Para ele, a narrativa representa o grau zero da enunciação; na narrativa, tudo se passa como se não houvesse nenhum falante; os acontecimentos parecem ser contados pó si próprios; o discurso caracteriza-se, pelo contrário, por uma enunciação que supõe um locutor e um ouvinte, e pela vontade, no falante, de influenciar seu interlocutor. DUBOIS, Jean; MATHÉE, Giacomo, GUESPIN, Louis; MARCELLESI, Christiane; MARCHELLESI, Jean- Batiste; MEVEL, Jean-Pierre. Dicionário de Linguística – [Direção e coordenação geral da tradução: Izidoro Blikstein] – 10ª edição – São Paulo: Cultrix, 1998. Legitimação. S.f. 1.Ato ou efeito de legitimar.2.Jur. Situação jurídica do possuidor legitimado de um título cambiário. Legitimar. V. t. d. 1.Tornar legítimo para todos os efeitos de lei; legalizar: Legitimou os documentos.2. Tornar legítimo (4): autenticar: Em Faulkner e em Guimarães Rosa, o primitivismo legitimou tudo (Hélio Pólvora, A Força da Ficção, p.24). 3. Reconhecer como legítimo ou autêntico (quaisquer poderes, títulos, ou posse de algo). 4. Habilitar para o exercício de certos atos ou o gozo de certos direitos, uma vez preenchidosos requisitos legais. 5. Equiparar (o filho ilegítimo) à situação legal dos legítimos, em conseqüência do posterior casamento dos pais Aurélio: Novo dicionário da língua portuguesa – Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1975. Este ensaio pretende analisar as estratégias discursivas de legitimação utilizadas por autores umbandistas. Utilizamos um corpus composto por cinco livros publicados nas décadas de 40, 50, 60 e 70. Para não congestionar o fluxo informacional do leitor, diremos o nome da obra no momento em que formos analisar ou flagrar uma dada estratégia. Este estudo justifica-se pela necessidade que temos de perceber: como certos critérios de edição, paginação, diagramação e, principalmente, de "prefaciação" foram utilizadas pelos autores umbandistas. Assim, em tal metodologia privilegiou-se não só o lingüístico, o verbal; como o aspecto não-linguístico, não verbal das obras analisadas. Buscou-se perceber os enunciados, sem esquecer a enunciação. Como não passamos por nenhuma pós-graduação em Linguística, mas sim, em Literatura Brasileira, confessamos ter tido dificuldades de analisar as obras partindo-se de concepções preconcebidas de AD , a qual a depender do teórico se utiliza de categorias como: máquinas discursivas (Zelig Harris), formações discursivas, sistemas de dispersão, ordem discursiva (Michel Foucault), discursividade, sujeito da enunciação, ego-eu, sujeito assujeitado (Michel Pêcheux), princípio dialógico, polifonia, signo/arena, heterogeneidade constitutiva(Mikhail Bakhtin) heterogeneidade mostrada, retórica da falha, inconsistência do discurso, estratégias discursivas, intertextualidade(Jaqueline Authier-Revuz) fatos de linguagem, universo discursivo, campos discursivo, espaço discursivo, sistema de regras semânticas, esquema semântico do intérprete, prática discursiva, rituais de escritura, biografia autoral, posicionamento, comunidade discursiva, vocalidade, investimento (Dominique Maingueneau), assujeitamento relativizado, interdisciplina múltipla, calar o objeto, fatos discursivos (Nelson Barros da Costa). Devido às dificuldades epistemológicas encontradas no confronto com a bibliografia utilizada, deve-se reconhecer, que a despeito de se falar em discurso, não privilegiamos uma teoria específica de discurso. Como este livro trata de afro-religiosidades deve-se informar que recorri à teoria da negritude de Nei Lopes, com o propósito de saber, na medida do possível, em que medida essa ou aquela estratégia discursiva flagra, sinaliza ou comunica a alta ou baixa auto-estima do escritor umbandista - o qual escreve sobre um culto popular visto pejorativamente por autores "sérios" ou de cultos "mais nobres" em flagrantes processos de subalternização religiosa. Para começar nossa investigação iniciamos pela obra de Candido Emanuel Felix . O nome da obra 'cartilha' - um termo do universo escolar - revela a estratégia que o autor utilizou para legitimar sua obra. Ou seja, Candido Emanuel Felix deseja que seu pequeno, mas substancioso livro (144 páginas) seja tomado pelo leitor culto como um micro-manual para o adepto de Umbanda. O autor escolheu a metodologia da pergunta e resposta, não por acaso técnica já consagrada pelo Livro dos Espíritos de Allan Kardec ou pelo estilo do espírito Ramátis. No final de sua "cartilha" o autor apresenta uma série de orações aos orixás, mas utilizando de nomes de santos católicos. Nisto o escritor revela a dependência intelectual com o culto católico, que muito se percebe até nos altares (congás) da umbanda popular ainda hoje pejada por imagens de santos católicos. No livro de Antonio Alves Teixeira (Neto) vemos a foto do escritor (um mulato de cabelo penteado e usando paletó); além disso o editor achou importante informar que o escritor em questão, não só publicou opúsculos e livros de umbanda, mas também livros sobre tabuada, noções elementares de aritmética e de que o autor é professor diplomado e membro da Academia de Letras do Vale do Paraíba. Ou seja, inferimos pelo que foi enunciado, que se Antonio Alves Teixeira fosse um pedreiro ou um engraxate, o editor não teria publicado a obra. O livro mostra também fotos dos médiuns em impecáveis trajes formais, paletós, vestidos e cabelo cortado. Ou seja, quanto mais embranquecido, urbanizado melhor. Nada de mostrar pessoas "incorporadas" por preto-velhos analfabetos e pés descalços. No livro de AB'D' Ruanda o próprio subtítulo já evoca o universo discursivo do qual o autor não conseguiu se libertar: a igreja católica. O autor muito preso aos lexemas católicos cria, a partir deles, extravagâncias do tipo: credo, mandamentos de umbanda e sacramentos de umbanda. A obra de Alfredo Alcântara Umbanda em Julgamento (o original não informa os créditos bibliográficos) é a que revela mais claramente essa insegurança, esse problema de identidade e de subserviência do escritor umbandista. O livro é apresentado por um escritor espírita kardecista e dois médicos kardecistas. É interessante perceber nome de médicos julgando uma obra umbandista, pois se sabe que por muitos anos a medicina oficial menosprezou o saber da "medicina" umbandista, considerada como responsável por danos e enlouquecimento de pacientes. Para concluir, pensamos que os autores umbandistas - sejam utilizando de metodologias escolar-livrescas, vocabulário católico ou usando o aval kardecista - foram e são vítimas de uma ignorância em relação ao próprio credo que professam. A umbanda é rica e complexa e não precisa está pedindo esmolas ou apadrinhamento de ninguém.

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